Nos congressos de profissionais ligados ao livro para crianças, as sessões menos concorridas são as que apresentam conferencistas falando sobre teoria e crítica, diz o estudioso inglês Peter Hunt, de 65 anos, uma autoridade em literatura infanto-juvenil. Hunt, professor emérito da Universidade Cardiff, pai de quatro filhas, todas grandes leitoras incentivadas por ele, conta que escreveu sua última obra numa época em que um maremoto de teorias cobria as estantes das bibliotecas universitárias britânicas, isto é, no começo de 1990, sete anos antes do fenômeno Harry Potter, que não entraria na lista dos favoritos do professor – ele gosta mais de Rudyard Kipling, Quentin Blake e Arthur Ransome. Hunt, aliás, escreveu seu livro justamente para acabar com a crítica intuitiva e vaga de gente que considera a literatura infantil simples e inferior à destinada ao público adulto.
O professor também sempre desconfiou de pedagogos que lhe recomendavam não deixar os livros para criança cair nas mãos dos departamentos de literatura das universidades, assumindo uma injustificável posição anti-intelectual. Há algo errado com acadêmicos que não consideram a teoria da literatura infantil digna de nota, observa. Esse anti-intelectualismo, diz ele, ultrapassa a fronteira acadêmica para dominar até mesmo as associações e federações de livros para crianças, que influenciam as compras governamentais de obras destinadas a escolares, funcionando às vezes como censores – é histórico o caso da ilustradora alemã Rotraut Susanne Berner, que há três anos, por sugestão de seu editor americano, recusou retirar de seu livro infantil a figura de um homem nu, tendo a publicação suspensa. Num país como o Brasil, em que o governo compra um em cada três livros vendidos pelas editoras, pode-se imaginar as proporções do desastre comercial dessa interferência.
Claro que não sabemos como uma criança lê, se ela o faz como uma experiência literária ou funcional, mas não vejo razão para que os livros de criança recebam menos atenção que uma obra de Shakespeare. Um olhar adulto nem sempre é perfeito para decretar o que vale ou não. Crianças, diz, diferem da norma e isso é o que faz a literatura infantil transgredir sempre. Mesmo não dispondo de instrumentos para analisar a linguagem dos livros, a fantasia da criança é maior, insubordinada.
Um clichê que ele vê finalmente excluído em nossa época, de autores transgressores como Kitty Crowter, é aquele que supõe ser o final feliz desejado pela criança. Ele não é garantia que a obra vá exercer alguma influência positiva sobre ela. Claro, não acho uma boa ideia escrever sobre doenças terminais para o público infantil, responde, ao se referir a livros como Vovô Esqueceu Meu Nome, de Nancy Grünewald, sobre um ancião que sofre do mal de Alzheimer. No entanto, como contar a uma criança sobre o trágico episódio da bomba atômica de Hiroshima?, pergunta. Devemos ou não escrever sobre o assunto? Hunt parece concordar com o acadêmico e terapeuta australiano Huch Crago, defensor da tese de que roteiro, personagem e tema não têm tanta importância quando se discute a experiência literária da criança, que não seria afetada por um final feliz ou escapista. Numa primeira fase de desenvolvimento, alerta Hunt, a criança de fato prefere uma história com desfecho e que a normalidade seja restabelecida. Os clássicos seguem essa norma, particularmente os vitorianos, acrescenta.Mas, em tempos de internet, quando a criança pode interferir nas histórias, controlar o que lê e até mudar um roteiro, a autoridade do autor não é mais a mesma.
Não dá para ser simplista numa questão dessas, mas também não dá para aceitar a linguagem uniformizada que o mercado editorial pretende impor às crianças de hoje, critica, referindo-se aos simulacros de Harry Potter que inundam o mercado há mais de uma década. São os críticos, segundo ele, os culpados por criar um cenário intelectual propício à produção de textos imitadores da saga de Harry Potter escrita pela britânica J. K. Rowling. A escolha das crianças apenas segue a ideologia de quem escreve sobre literatura infantil. Nem mais, nem menos. Ontem foi Harry Potter. Hoje são vampiros assexuados.
Hunt desconfia que uma nova onda moralista, traduzida na revisão de clássicos, vire um tsunami, considerando as “adaptações” que editoras inglesas encomendam a autores de best sellers como Pedro Coelho, de Beatrix Potter (cuja versão original com os desenhos da autora foi lançada no Brasil pela editora Lótus do Saber). Ele lembra que a escritora, morta em 1943, chegou a ser procurada por um editor que lhe sugeriu reescrever seu livro com “palavras simples o bastante para uma criança entender”. A réplica de Beatrix não foi muito educada. Ela, a exemplo de seus leitores, preferiu a anarquia de seus coelhos infernizando a vida de seu Gregório, o horticultor.
Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100828/not_imp601563,0.php